top of page

Terras Raras

  • Foto do escritor: Jean De Paola
    Jean De Paola
  • 2 de ago.
  • 10 min de leitura

 

O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do planeta, porém ainda não conta com uma produção comercial de óxidos separados, de metais, das ligas e dos ímãs desses elementos. Essa é apenas uma das informações que pode ser obtida a partir do denso documento produzido pela pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, CGEE.

 

Minha primeira impressão ao ler o documento foi que o Brasil, por possuir tantas terras raras, praticamente não processava esse minério. Como engenheiro metalurgista, considero que a mineração somente completa seu papel quando o minério é transformado em produtos de maior valor, o país não exporta minério bruto de terras raras, mas concentrados e compostos mistos resultantes das etapas iniciais de beneficiamento mineral.

O desafio está exatamente neste ponto, o nosso país ainda não dispõe de uma operação consolidada capaz de separar individualmente os elementos terras raras e transformá-los em óxidos de alta pureza, metais, ligas e, posteriormente, em produtos tecnológicos como os ímãs permanentes.

 

O minério pode estar no Brasil, mas o valor realmente aparece quando existe uma tecnologia para separar os elementos e transformá-los em materiais industriais. Os valores do produto crescem rapidamente após uma nova etapa de processamento. O relatório do CGEE divide as etapas de processamento das terras raras em quatro grandes estágios:

Etapa da cadeia

Produto

Ordem de valor apresentada pelo CGEE

Mineração e concentração

Concentrado misto de terras raras

US$ 15 a US$ 30/kg

Separação química

Óxidos individuais de alta pureza

De US$ 1,11/kg para o cério a US$ 988,99/kg para o térbio

Metalurgia

Metais e ligas de terras raras

US$ 150 a US$ 400/kg

Manufatura avançada

Ímãs permanentes de NdFeB

Maior concentração de valor e tecnologia

Aqui cabe uma explicação rápida, os elementos terras raras aparecem naquela linha abaixo e deslocada da tabela periódica, 15 estão ali e mais 2 estão dentro dela (claro que todos os átomos ali pertencem a tabela periódica, mas visualmente é isso). Apesar de serem chamados terras raras não são necessariamente raros na Terra. O desafio aqui não é encontrá-los, mas separá-los uns dos outros.

A diferença de valor por quilo dos óxidos é muito ampla porque não existe um único preço da terra rara (já que são 17!). O cério e o lantânio são relativamente abundantes e baratos, enquanto o térbio e o disprósio são mais escassos e essenciais para ímãs que precisem operar em temperaturas mais elevadas.

Esse número elevado de elementos acaba criando uma dificuldade metodológica para tentar fazer as comparações de preço, pois o comércio internacional não possui uma classificação perfeita que acompanhe a terra rara desde o minério até o ímã acabado. Alguns códigos agrupam diferentes compostos, enquanto outros reúnem diferentes tipos de ímã. Assim, a comparação é uma aproximação da mudança de valor ao longo das etapas de processamento ou da posição na cadeia, e não como uma equivalência química direta.

Segundo os dados de 2024 (WITS a partir da UN Comtrade), os países importadores registraram as seguintes compras de compostos de terras raras provenientes do Brasil:

Destino

Valor importado do Brasil

Quantidade

Valor unitário aproximado

China

US$ 213,64 mil

60.039 kg

US$ 3,56/kg

Argentina

US$ 129,54 mil

1.414 kg

US$ 91,61/kg

Outros destinos

Cerca de US$ 4,75 mil

Cerca de 1.008 kg

Total estimado

US$ 347,9 mil

62.461 kg

US$ 5,57/kg

A diferença entre o produto enviado à China e aquele enviado à Argentina provavelmente reflete diferentes composições, purezas e usos. Ainda assim, o volume destinado à China — cerca de 60 toneladas a aproximadamente US$ 3,56/kg — é compatível com a descrição de um produto de baixa transformação ou de composição mista.

Para aqueles que não estão acostumados ao mundo da mineração (os mineiros) e da metalurgia a tabela abaixo mostra a variação de preços ao longo das etapas de processamento do caso mais simples e que nos rodeia sempre, o aço. Para os que conhecem fiquem à vontade para pular a próxima tabela.

No caso do aço imagine que a mineradora seja a Vale e as empresas que processarão sejam as siderúrgicas primárias como a Usiminas ou a CSN. A tabela abaixo mostra a variação de preços ao longo de cada etapa.

Etapa

Processo

Valor aproximado (US$/t)

Minério de ferro

Lavra, britagem e concentração

100

Pelotas

Moagem fina, pelotização e queima

135

Ferro-gusa

Redução em alto-forno

400–500

Placas de aço

Refino + lingotamento contínuo

500–650

Bobinas laminadas a quente

Laminação

650–850

Aços especiais

Tratamentos metalúrgicos

1.000–3.000+

Como termos de comparação veja os valores da tabela abaixo para as terras raras.

Produto

Preço aproximado (US$/kg)

Multiplicação em relação ao concentrado (≈ US$ 20/kg)

Concentrado de terras raras

15–30

Óxido de Cério (CeO₂)

1–3

menor que o concentrado

Óxido de Lantânio (La₂O₃)

2–5

semelhante ao concentrado

Óxido de Neodímio (Nd₂O₃)

50–60

2–4×

Óxido de Disprósio (Dy₂O₃)

250–300

10–20×

Óxido de Térbio (Tb₄O₇)

800–1.000

30–60×

Metal de Neodímio

80–120

4–6×

Liga NdFeB

120–180

6–9×

Ímãs permanentes NdFeB

300–900

15–45×

Na verdade, e só para reforçar, não existe uma única terra rara que sempre apresente uma valorização de 15 a 45 vezes. Esse fator refere-se à cadeia produtiva como um todo, comparando o valor do concentrado mineral com o dos produtos finais, especialmente os ímãs permanentes de NdFeB (neodímio-ferro-boro). Então, utilizando os preços do relatório do CGEE e os preços internacionais dos metais e ímãs, podemos estimar esse aumento do valor.

A ideia de colocar as duas tabelas juntas é simples, mostrar que ao se processar o minério o resultado lá na ponta é muito bom e, vale para o aço e vale também para os elementos terras raras.

Comercialmente um país que detenha esse conhecimento ganha muito dinheiro. Mas, existe algo de imponderável que não se vê nos números presentes nessas tabelas. É a capacidade de pressão econômica ou de alavancagem geopolítica, a China limitou a exportação de determinados elementos ou produtos isso aconteceu recentemente com o gálio, o germânio, o grafite, as terras raras pesadas e os ímãs permanentes contendo terras raras. Que teve como resultado uma redução da oferta mundial e um consequente aumento dos preços.

O painel da Organização Mundial do Comércio (OMC) concluiu que as restrições chinesas às exportações das terras raras, do tungstênio e do molibdênio concediam uma vantagem competitiva às indústrias chinesas de transformação ao limitar o acesso de produtores estrangeiros às matérias-primas.

A China vislumbrou o uso e a necessidade desses elementos décadas atrás e o que se vê hoje é o resultado dessa visão. A Agência Internacional de Energia estima que, em 2024, a China respondeu por:

  • aproximadamente 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em ímãs;

  • 91% do refino desses elementos;

  • 94% da fabricação mundial de ímãs permanentes sinterizados.

Em 2005, sua participação na fabricação desses ímãs era de aproximadamente 50%. Portanto, a expansão para 94% ocorreu principalmente durante as duas últimas décadas.

A participação chinesa aumenta à medida que a cadeia se torna mais tecnológica: aproximadamente 60% na mineração, 91% no refino e 94% nos ímãs. O relatório da CGEE resume essa questão ao afirmar que o poder na cadeia não decorre simplesmente da posse de reservas, mas do controle das etapas de processamento.

A exploração mineral começou nos anos 1950, na década de 1970, o governo chinês criou uma estrutura para coordenar o desenvolvimento e as aplicações das terras raras (National Rare Earth Development and Application Leading Group), voltado à pesquisa, exploração mineral e capacitação industrial. No final dos anos 1980, o país já havia se tornado um produtor mundial relevante.

O documento da CGEE mostra que durante décadas, a China manteve os preços suficientemente baixos para dificultar economicamente o desenvolvimento de produtores concorrentes nos Estados Unidos, Austrália e em outros países. De maneira a se precaver de novas baixas inesperadas dos preços das terras raras, o novo programa dos Estados Unidos (visando a produção interna), foi criada uma rede de segurança para os produtores locais. O governo garante um valor mínimo por tonelada, de maneira que, se houver uma baixa do preço internacional a diferença entre o preço combinado e o do mercado é coberto pelo governo.

Além da política de preços, a China utilizou diversas estratégias complementares, de maneira a obter escala, se acumulasse experiência operacional, formou-se fornecedores de equipamentos e de reagentes, desenvolveu mão de obra como engenheiros e operadores, aprendeu a controlar processos químicos e o modelo que se vê hoje, criou uma demanda doméstica.

Embora tenha permitido determinadas parcerias internacionais, a China manteve sob controle estatal as etapas consideradas estratégicas, como a mineração, a separação química, o refino e a produção de ímãs permanentes. O passo seguinte foi utilizar as cotas de mineração, o licenciamento ambiental, os impostos e restrições às exportações e à participação estrangeira e aumentou o controle sobre a exportação de equipamentos e das tecnologias.

O objetivo não era simplesmente exportar apenas o minério, mas manter dentro do país as etapas que geravam conhecimento, empregos, propriedade intelectual e poder de negociação (RAND). Não se construiu apenas a oferta de terras raras, na outra ponta criou-se também grandes consumidores domésticos como os fabricantes de veículos elétricos, os produtores de turbinas eólicas, a indústrias de eletrônicos, da automação e da robótica...

A forte demanda interna permitiu que as refinarias e as fábricas operassem praticamente à plena capacidade, viabilizando economia de escala e reduzindo o custo unitário dos produtos. Segundo a análise da RAND, o ecossistema chinês foi sustentado por crédito estatal, pela política industrial territorial e por uma demanda garantida de setores como veículos elétricos, defesa e energia eólica. Em outras palavras, não seria suficiente construir uma refinaria isolada. É necessário haver compradores para os óxidos, para os metais, para as ligas e ímãs.

Como sempre acreditei que a solução para boa parte dos problemas passa pela educação, procurei entender como a China trabalhou nesse campo. Num artigo da Reuters de junho deste ano, mostrou que na China há mais de 40 laboratórios especializados em terras raras, existem pelo menos 11 universidades e institutos com programas relacionados e há mais de 500 estudantes matriculados anualmente em cursos específicos da área, não há nada parecido com essa estrutura em nenhum outro país.

Nosso país não parte do zero nesta história, o relatório do CGEE descreve que existe massa crítica no CETEM, na USP e na UFSC por exemplo. O CETEM desenvolveu uma rota contínua para separar lantânio do didímio e recebeu uma patente relacionada ao processo. Também foi selecionado para implantar uma planta-piloto destinada à separação de terras raras magnéticas. Há grupos de pesquisa qualificados e iniciativas tecnológicas, mas ainda não conta com uma operação comercial estabelecida para separar individualmente os elementos de terras raras.

A mineração urbana pode ser uma fonte desses elementos o Brasil gera mais de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano, contendo minerais críticos que poderiam funcionar como fontes secundárias. Além da sucata eletrônica há outra fonte, o projeto desenvolvido em parceira entre a Tupy e o laboratório Larex da Escola Politécnica é o maior e mais bem sucedido projeto de recuperação de terras raras a partir das baterias dos carros elétricos do país.

A conclusão do documento do CGEE é que o Brasil não deve simplesmente copiar a China. Nós temos as condições de contorno diferentes, tanto ambientais, como regulatórias, ou políticas e econômicas logo nossa solução também deverá ser única e voltada aos nossos interesses. Foi proposto um mapa estratégico propondo a criação de uma Rede Nacional de Pesquisa em Terras Raras, voltado a separação, ao processamento visando obter metais e ímãs, suportado por um financiamento de P&D (com os órgãos de fomento CAPES, CNPq, FINEP, EMBRAPII e BNDES), criando um programa nacional de formação de especialistas e finalizando com a implantação de plantas-piloto de ligas magnéticas e ímãs NdFeB.

Depois dessa etapa o Brasil precisaria que as plantas de refino estivessem associadas aos compradores. Isso pode envolver, ficando em poucos exemplos fabricantes de motores elétricos, indústria automotiva e equipamentos de energia eólica. A experiência internacional indica que centros de excelência, plantas-piloto e refinarias dificilmente são financiados apenas pelo mercado. O estudo brasileiro propõe a combinação de BNDES, FINEP, fundos de inovação, encomendas tecnológicas, compras estratégicas e contratos de longo prazo.


A ideia de escrever esse texto partiu da leitura do documento Terras Raras no Brasil. Hoje em dia como temos muita facilidade de obter artigos, papers e livros (somos afogados por eles) então acontece uma seleção natural do que será lido, quando recebi fui ver quem eram os autores, um deles é o Fernando Landgraf a escolha estava feita. Conheci o Fernando nos anos 80 no IPT, após uma carreira maravilhosa lá ele decidiu passar o conhecimento para frente e virou professor da Metalurgia na Poli. Dessa maneira, quando escrevo umas poucas páginas (no documento original são centenas!) adicionada de outras referências o mérito é todo do autor (dos autores) e o que estiver sem precisão ou desviado da realidade a culpa claro, é minha. Ao longo do texto escrevi apenas a palavra processamento ao me referir a passagem do minério ao produto final algumas dessas etapas envolvem lixiviação ácida ou alcalina, extração por solventes, troca iônica, precipitação seletiva, cristalização e calcinação que omiti por não serem necessárias ao entendimento do texto e para deixar a leitura mais fluida.  A imagem que abre esse texto é de um carro resistente, fotografia feita na Capadócia, assim como podemos enxergar a posição do Brasil, robusta e confiável, mas ainda não é um carro elétrico. A seguir coloco as referências que usei para quem se interessar em entender mais profundamente o assunto.

CGEE. Terras raras no Brasil: estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026–2040. Brasília, 2026. É a principal fonte para o artigo e reúne dados sobre mineração, refino, ímãs, comércio exterior, instituições e propostas de política pública.

International Energy Agency. Rare Earth Elements, 2026. Fonte para participação chinesa na mineração, refino e fabricação de ímãs. (IEA)

UN Comtrade/WITS. Estatísticas de comércio exterior dos códigos HS 284690 e 850511. (Wits)

USGS. Mineral Commodity Summaries — Rare Earths. Fonte para produção, reservas e preços de óxidos.

CETEM/MCTI. Projetos e publicações sobre processamento, separação e refino de terras raras.

Brasil Mineral. CETEM faz diagnóstico e identifica “minas urbanas”, 2026.

Hornby, L. (2010). China rare earth quota prices up as exporters jostle. Reuters.

RAND Europe. Old priorities, new contexts: The institutional roots and new developments of China’s rare earth policy, 2026. Apresenta a cronologia das políticas chinesas, integração industrial, consolidação empresarial e proteção tecnológica. (RAND Corporation)

Medeiros, C. A.; Trebat, N. Estudo sobre a transformação da indústria chinesa de terras raras e o papel das políticas tecnológicas estatais. (SciELO)

Lei, S. et al. Overview on China’s Rare Earth Industry Restructuring and Regulation Reforms. Journal of Resources and Ecology, 2017. (Jorae)

Kalantzakos, Sophia. China and the Geopolitics of Rare Earths. Oxford University Press, 2021.

Mancheri et al. Estudos sobre a cadeia chinesa e japonesa de terras raras, cobrindo mineração, processamento e aplicações industriais. (中国学.com)

Reuters. A bachelor’s in rare earths? In China, there are schools for that, 1º de junho de 2026. É uma fonte importante para os números de universidades, laboratórios, estudantes e integração entre ensino e indústria. (Reuters)

Jiangxi University of Science and Technology — Rare Earth College. Fonte institucional sobre formação específica em engenharia de terras raras. (JXUST)

 

 

 
 
 

Comentários


j2020

bottom of page