O futuro pode estar na oficina de conserto
- Jean De Paola

- 20 de jul.
- 8 min de leitura

Os eletrodomésticos da casa dos meus pais duraram anos — na verdade, foram décadas. A televisão, a geladeira, a máquina de lavar e a minha favorita, uma câmera fotográfica que ainda utilizo, iam para o conserto e voltavam funcionando, prontas para mais um ciclo. Esse era o comportamento das pessoas.
Essa dinâmica da valorização do produto valeu até a metade dos anos 90. A partir dali o mercado passou por uma mudança drástica até chegarmos nos anos 2000 e o tempo de vida médio dos dispositivos passou a ser de alguns poucos anos. Entramos na era da obsolescência programada, e para algumas coisas ainda continuamos, onde consertar deixou de compensar financeiramente, é mais barato e rápido descartar o aparelho quebrado e comprar um modelo novo.
Esse é o modelo de extrair, produzir, usar e descartar.
Com o tempo e volumes de lixo eletrônico se acumulando estudos começaram a serem feitos para achar uma saída, a reciclagem apareceu para tentar resolver. Placas de circuito impresso, eletrodomésticos e computadores começaram a serem reciclados primeiro porque havia motivação econômica, dava dinheiro reciclar e depois porque as leis começaram a impor regras. Avaliações mais precisas como a Análise de Ciclo de Vida (ACV) mostraram que há casos em que é melhor para o meio ambiente, há menos emissões de gases de efeito estufa e menos consumo de energia, produzir metais a partir de matéria-prima virgem do que reciclar, mesmo que, esse raciocínio não pareça fazer sentido. Nesta mesma linha, mas com uma lógica menos impactante, consertar, recondicionar ou reparar dispositivos também é melhor para o meio ambiente do que reciclar (ou seja, desmontar até conseguir separar todas as matérias-primas).
A União Europeia (UE) percebeu que se preocupar apenas na reciclagem ao final da vida útil não seria o suficiente para atingir as metas climáticas e de neutralidade de carbono. Estudos de ACV comprovaram que a maior parte das emissões de gases de efeito estufa ocorre durante a fabricação dos produtos, e não no seu uso diário ou durante a manutenção.
Assim, a UE aprovou e vem expandindo continuamente o chamado Right to Repair (Direito ao Conserto). Trata-se de um conjunto de diretrizes regulatórias que aumenta o poder do consumidor face aos fabricantes. Entre as principais obrigações impostas pela legislação europeia, destacam-se:
· Disponibilidade de peças de reposição: As empresas são obrigadas por lei a manter estoques de peças cruciais por vários anos (geralmente entre 7 e 10 anos) mesmo após o produto ter saído de linha.
· Transparência técnica: Fabricantes devem fornecer manuais de reparo claros, detalhados e acessíveis a técnicos independentes e aos próprios consumidores.
· Acesso a ferramentas: É proibido restringir o acesso a softwares ou a ferramentas proprietárias de diagnóstico de falhas, quebrando monopólios de assistências técnicas autorizadas.
A França decidiu ir além do bloco europeu e, desde 2021, implementou uma medida pioneira de rotulagem: o Índice de Reparabilidade (Indice de Réparabilité). Funciona de forma similar aos selos de eficiência energética que temos no Brasil, como nas geladeiras por exemplo, avalia o quão fácil é consertar aquele eletrodoméstico ou eletrônico, atribuindo uma nota de 0 a 10.
O cálculo da nota considera cinco critérios:
1. Facilidade de desmontagem: A quantidade de etapas e o tipo de ferramentas necessárias para abrir o produto (privilegiando ferramentas comuns).
2. Disponibilidade de peças: O tempo necessário para que uma peça de reposição chegue até o cliente ou o técnico.
3. Preço das peças: A relação entre o custo da peça de reposição mais cara e o preço total do produto novo (evitando que uma tela nova custe 90% do valor de um celular novo).
4. Acesso à documentação: A gratuidade e a facilidade para baixar manuais e esquemas elétricos.
5. Critérios específicos da categoria: Atualizações de software simplificadas e assistência técnica remota acessível.
Essa política altera o comportamento do consumidor: diante de dois smartphones ou de televisores com preços próximos, o cliente ganha o poder de escolher aquele que oferece maior durabilidade e menor custo de manutenção no longo prazo.
As empresas estão se movendo em direção à economia circular e à flexibilização do conserto por uma combinação de forças: uma pressão regulatória crescente, a mudança nas expectativas dos consumidores, os litígios judiciais severos e pela pura vantagem competitiva. Os quatro exemplos a seguir ilustram essa transformação:
No mercado de eletrônicos, a startup holandesa Fairphone (que pelo nome da pra saber que é de celular) surgiu com uma filosofia de modularidade. Quando você adquire o aparelho, ele vem acompanhado de uma pequena chave Phillips comum. Se a tela quebrar, se a bateria viciar ou se o usuário quiser uma câmera mais moderna, ele não precisa comprar um celular novo. Ele entra no site oficial, adquire a peça (o módulo) avulsa e faz a substituição em casa.
O objetivo é estender a vida útil do aparelho para além de 5 ou 7 anos, reduzindo a pegada de carbono vinculada à mineração das terras raras. Embora pareça contraintuitivo para o varejo tradicional (afinal, a empresa demora mais para vender um novo celular para o mesmo cliente), este modelo procura criar uma comunidade compradora fiel e na venda recorrente de serviços promove o que é chamado na maioria das vezes de (ecos)sistemas sustentáveis.
Historicamente, a Apple foi o principal alvo das críticas e ativistas do movimento Right to Repair. A gigante criada pelos dois Steve, o Wozniak e o Jobs, utilizava parafusos proprietários, soldava componentes na placa mãe o que impedia a troca de apenas uma delas e implementava travas de software complexas que bloqueavam o aparelho caso uma peça fosse trocada fora de uma assistência técnica autorizada.
Essa postura levou a empresa a enfrentar processos judiciais dos consumidores, nos Estados Unidos — incluindo uma ação civil coletiva por monopólio de reparo que resultou em um acordo de US$ 113 milhões.
Pressionada por legislações e pelas novas regras europeias, a Apple decidiu mudar o rumo em suas políticas. A empresa lançou o programa Self Service Repair (Serviço de Autorreparo), disponibilizando peças originais, aluguel de ferramentas oficiais (pois em alguns casos são exclusivas) e manuais. Mais recentemente foi disponibilizado uma função que permite que os donos de iPhones seminovos vejam o histórico de reparos e nesse caso, validando a economia circular por pura necessidade de adaptação ao mercado.
O Direito ao Conserto não se limita aos celulares e aos laptops, o caso da John Deere mostra que esse assunto também se estendeu para outras áreas como nos campos de plantação. Os tratores e as colheitadeiras modernos são verdadeiros computadores sobre rodas, equipados com sensores, GPS e softwares complexos.
Por anos, a John Deere bloqueou via software o acesso a códigos de erro e a ferramentas de calibração eletrônica. Se um trator quebrasse no meio da colheita, como por exemplo agora em julho no estado de São Paulo que se colhe cana (todos os casos das empresas apresentados aqui são, infelizmente, fora do Brasil) um momento crítico onde cada hora perdida custa, o agricultor era proibido de consertar o próprio veículo ou de chamar um mecânico local. Ele era obrigado a esperar dias pela visita de um técnico da John Deere e pagar valores abusivos pelo serviço.
Essa prática foi classificada como abuso de poder econômico e de formação de monopólio pós-venda, o promoveu uma ação da Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) e de vários estados americanos. O desfecho ocorreu em julho de 2026, quando a John Deere firmou um acordo judicial definitivo com a FTC. Sob a supervisão direta do governo pelos próximos 10 anos, a empresa foi obrigada a fornecer aos fazendeiros e aos mecânicos independentes exatamente os mesmos softwares, códigos e as ferramentas de diagnóstico que disponibiliza para suas concessionárias autorizadas.
Se a Apple e a John Deere precisaram mudar seus modelos por força de processos e das leis, a Caterpillar mostra que a economia circular pode ser o ponto inicial e feita de maneira voluntaria há mais de meio século.
Lançado originalmente em 1973 por razões econômicas e devido a crises de fornecimento da época, o programa Cat Reman baseia-se em um sistema de logística reversa conhecido como Core Return:
· Quando o motor de uma escavadeira atinge o fim de sua vida útil, o cliente o devolve para a rede Caterpillar.
· Em troca, ele recebe um componente remanufaturado(ou como conhecemos no Brasil com o motor retificado) equivalente, cujo custo financeiro chega a ser até 50% menor do que o preço de uma peça nova.
· O componente usado passa por: desmontagem, limpeza a laser, inspeções e de atualização para as especificações técnicas recentes.
A Caterpillar entrega esses componentes com a mesma garantia de fábrica de um produto novo, alcançando reduções de 65% a 87% nas emissões de gases de efeito estufa e de consumo de energia, além de utilizar apenas de 10% a 20% de matérias-primas virgens. Somente em 2023, o programa recuperou mais de 66 mil toneladas de materiais que virariam sucata. Ao controlar esse ciclo, a Caterpillar fica com o dinheiro e ainda impede que o cliente migre para os concorrentes.
O avanço do Direito ao Conserto e dos programas industriais de remanufatura prova que a sustentabilidade nas empresas superou a fase da mera filantropia ou do greenwashing. Trata-se de prática de negócios e da retenção de clientes a longo prazo.
Projetar produtos para durar, consertar e recondicionar não destrói os mercados, pelo contrário, cria sistemas de serviços robustos e protege as empresas contra a volatilidade do preço de matérias-primas virgens e das sanções regulatórias que estão se tornando padrão.
A imagem que abre esse texto é a da câmera fotográfica Yashica D que utiliza filme 120 mm, de 1963, que ainda uso.
Olhar para o passado e resgatar hábitos que nossos pais e avós tinham como mandar consertar os equipamentos é, e os números como os obtidos da Análise de Ciclo de Vida mostram isso, um ótimo caminho para desenhar o futuro dos negócios.
Este é o quarto texto sobre qual é a melhor escolha entre buscar matéria-prima virgem, reciclar e consertar. Nos outros três há as referências dos papers de ACV onde se encontram os números e os dados, para não ficar repetitivo neste texto apresento abaixo apenas quais são os caminhos que estão sendo adotados por países e pelas empresas.
Fontes e Referências
União Europeia e as Diretrizes do Direito ao Conserto: Regulamentos oficiais e estudos sobre emissões na fabricação de eletrodomésticos https://www.europarl.europa.eu/news/pt/press-room/20240419IPR20590/direito-a-reparacao-torna-la-mais-facil-e-mais-atrativa-para-os-consumidores.
Ministério da Transição Ecológica da França: Detalhes técnicos, cartilhas e legislações sobre o funcionamento e aplicação do Índice de Reparabilidade (Indice de Réparabilité) https://www.ecologie.gouv.fr/en.
Fairphone Official Portal: Dados sobre ecodesign modular, relatórios de impacto social e venda de componentes eletrônicos justos. Disponível em Fairphone.com. Para conhecer como é o funcionamento do sistema o link para o diagnóstico de problemas https://fairphone.b2x.com/troubleshooting .
Federal Trade Commission (FTC): Registro público e termos do acordo judicial antitruste firmado com a Deere & Company em julho de 2026 referente ao mercado de serviços de reparo agrícola. Notícias sobre o acordo podem ser vistas em ( https://apnews.com/article/john-deere-right-to-repair-agriculture-equipment-cb7514ffedb95c130a976af661f2bc02) . Em 2023, a empresa assinou um acordo (https://apnews.com/article/john-deere-repair-lawsuit-settlement-595d4b089689cd94418991326275b68d e https://www.reuters.com/sustainability/boards-policy-regulation/deere-settles-us-right-to-repair-lawsuit-with-99-million-fund-repair-commitments-2026-04-07/?utm_source=chatgpt.com )
Relatórios sobre a transição da Apple para o mercado secundário de peças de reposição e políticas de rastreabilidade de hardware. Self Service Repair (https://www.apple.com/newsroom/2022/04/apples-self-service-repair-now-available/?utm_source=chatgpt.com) e a ampliação deste programa a partir de processos para facilitar o diagnostico (https://www.apple.com/newsroom/2023/12/apple-expands-self-service-repair-and-introduces-new-diagnostics-process/?utm_source=chatgpt.com) e, no Brasil, o link para acessar as informações é o (https://www.apple.com/br/newsroom/2023/06/apple-expands-self-service-repair-and-updates-system-configuration-process/?utm_source=chatgpt.com )
Caterpillar Circular Economy Study: Relatórios de Sustentabilidade da Caterpillar Inc. detalhando os dados de economia de energia, emissões (65-87%) e recuperação de materiais da marca Cat Reman. No site ( https://www.caterpillar.com/en/company/sustainability.html?utm_source=chatgpt.com ) há as informações a respeito do programa, relatórios de sustentabilidade de economia circular e também Disponível no Blog de Sustentabilidade da Cat.



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