As evidências históricas de que a reciclagem de metais surgiu e se consolidou muito antes de a transição energética, a sustentabilidade ou a economia circular entrarem no vocabulário
- Jean De Paola

- 11 de ago.
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Você pode fazer macarrão comprando uma farinha duplo zero e ovos (com 100 g de farinha 00 para cada ovo) ou pode ir no mercado comprar um pacote de massa pronta. No primeiro caso você irá gastar mais tempo, energia e gerará mais resíduos, no segundo além de ser mais rápido você economizará em todos os itens descritos. Nas duas situações você terá macarrão na mesa, mas a partir de condições diferentes. No caso dos metais reciclados é a mesma situação, utilizar um metal já usado anteriormente, uma sucata, para produzir aço, alumínio, cobre... exige menos energia e matérias-primas e resulta em menores emissões do que produzir esse mesmo metal a partir do minério. Não há novidade nisso, quando se utiliza sucata como matéria prima para produzir o metal base você já está no meio do caminho do processo.
Nesse texto, vou descrever um pequeno histórico do uso de sucata em três países, nos Estados Unidos, na Alemanha e no Brasil, em casos que remontam a mais de um século.
O artigo da Nature (17/junho/1922, The Electro-Metallurgy of Steel) descreve o por que do forno elétrico ter se expandido a partir da Primeira Guerra Mundial. O texto explica que o crescimento ocorreu, entre outros motivos, pela need for utilising [...] the vast accumulation of heavy steel turnings, ou seja, havia grandes quantidades acumuladas de cavacos/sucata de aço que precisavam ser reaproveitadas. Essas circunstâncias permitiram demonstrar as economic advantages do forno elétrico em determinados segmentos da produção de aço. Portanto, há mais de 100 anos, já se associava que o uso de sucata apresenta vantagem econômica.
O caso do alumínio é semelhante, o Minerals Yearbook registra que Estimates of the recovery of secondary aluminum have been published in Mineral Resources [...] since 1914. Isso significa que, apenas cerca de 25 anos depois do início da produção industrial do alumínio, já existia uma indústria de recuperação de alumínio secundário suficientemente importante para ser acompanhada estatisticamente pelo governo norte-americano.
No Mineral Resources of the United States, de novembro de 1924, há um capítulo inteiro chamado Secondary metals, de J. P. Dunlop. Ou seja, uma publicação de 1924 que se chama alguma coisa como Recursos Minerais aponta para a sucata de alumínio como um recurso.
Para aqueles que não estão familiarizados com metalurgia, aqui vai uma explicação rápida, normalmente, quando se fala em alumínio ou qualquer metal, e aparece a palavra primário indica que esse metal é proveniente (basicamente) do minério. Quando se fala em metal secundário, a indicação é de que o metal foi obtido a partir da recuperação ou reciclagem de materiais metálicos previamente produzidos. Assim, a sucata é a matéria-prima, o alumínio secundário é o produto obtido a partir dela (vale também para indicar o tipo de usina, por exemplo produção primária é aquela que usa majoritariamente minério de alumínio como matéria-prima).
Na Alemanha, a revista Stahl und Eisen, em um artigo de 1930 sobre operação de uma usina de aços especiais dedica atenção ao armazenamento e à classificação da sucata. O texto diz que é necessário se preocupar com o armazenamento segregado da sucata e que ela deve ser estocada tanto por tamanho quanto, especialmente, por tipo de liga, porque as misturas podem ter consequências para o produto. Repare, isso não é uma coleta rudimentar de resíduos. Em 1930, a siderurgia alemã já tratava a sucata como matéria-prima. Hoje, em 2026, as siderúrgicas têm pátios de armazenamento de sucatas que seguem esses mesmos princípios.
No Brasil, em 1946, foi publicado o Decreto-Lei nº 9.597, que tinha como objetivo suspender os direitos de importação e as taxas aduaneiras incidentes sobre as sucatas de ferro e de aço. No mesmo ano em que a CSN iniciava oficialmente sua produção de aço em Volta Redonda, o governo brasileiro estava facilitando economicamente a importação de sucata ferrosa. Isso é interessante porque demonstra que a sucata era uma matéria-prima industrial suficientemente importante para justificar uma alteração tributária federal destinada a facilitar sua aquisição.
A conclusão aqui é que a reciclagem dos metais não nasceu como política ambiental. Ela já existia em escala industrial porque o metal contido na sucata tinha valor econômico, porque podia substituir parte das matérias-primas primárias, porque determinadas tecnologias conseguiam processá-lo economicamente e, em alguns períodos, porque havia escassez ou dificuldade de acesso as essas matérias-primas primárias. A conservação de energia e, muito posteriormente, a redução das emissões passaram a ser argumentos adicionais.
Criar novos nomes para processos e etapas que já tiveram livros escritos, documentos governamentais validados, leis aprovadas, aulas dadas em cursos de metalurgia não me parece correto. Apresentar a reciclagem de metais como uma prática criada pela economia circular, pela sustentabilidade ou pela transição energética não é historicamente correto. O reaproveitamento industrial da sucata metálica é muito anterior a esses conceitos. Alguns desses processos com mais de 100 anos. Os fundamentos termodinâmicos desses processos são conhecidos há décadas e ajudam a explicar por que, em muitas rotas metalúrgicas, partir de um metal já reduzido pode exigir menos energia do que obtê-lo novamente a partir do minério e, desta forma o processo utilizando sucata é muito mais limpo. Associar qualquer termo novo a esses fenômenos é pegar carona em um tema já pronto e acabado.
A fotografia que abre este texto é de um carro bacana que, infelizmente, não sei qual é. Ele estava estacionado na região do Bixiga, em São Paulo, e espero que não tenha virado sucata.
MARKET CONTROL IN THEALUMINUM INDUSTRY, DONALD H. WALLACE



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